LIFE Stop Cortaderia | Contacta en:|lifestopcortaderia@seo.org
//O sexo das plantas de Cortaderia

O sexo das plantas de Cortaderia

  • O sexo das plantas

Sabia que a erva-das-pampas possui indivíduos com flores femininas e indivíduos com flores hermafroditas, isto é, flores que possuem estruturas reprodutoras femininas e masculinas?

Ainda que as ervas-das-pampas (Cortaderia selloana) possam parecer todas iguais, a verdade é que algumas plantas são femininas (i.e., as suas flores apenas têm ovários, que mais tarde darão origem aos frutos) enquanto outras são hermafroditas (i.e., além dos ovários as flores têm também a parte masculina, composta por estames com pólen). Plantas femininas sozinhas (i.e., sem hermafroditas nas imediações) dificilmente se reproduzem. Ou seja, é mesmo importante saber distinguir que tipo de plantas estão presentes – é o que explicamos mais abaixo!

A espécieé mais facilmente reconhecida durante a época de reprodução (que começa em junho/julho e estende-se até outubro/novembro, ainda que possa variar de ano para ano e as plumas “vazias” possam ficar na planta muito tempo), quando as plantas possuem plumas vistosas, de cor esbranquiçada ou prateada. Porém, muitas plumas nascem com cor acastanhada, púrpura ou bordô (Figura 1),conforme o sexo e o estado de maturação, clareando à medida que amadurecem. Cada pluma pode atingir 1m de altura e os colmos (pedúnculos na base das plumas) chegam a ter 4m.

Pormenor da floração de Cortaderia selloana: as plumas diferem bastante na coloração, conforme o sexo e o estado de maturação das mesmas

Figura 1: Pormenor da floração de Cortaderia selloana: as plumas diferem bastante na coloração, conforme o sexo e o estado de maturação das mesmas

Para se compreender realmente o processo de invasão pela erva-das-pampas, é imprescindível perceber como funciona a sua reprodução. Na prática, qualquer medida de controlo desta espécie invasora tem que ter por base o conhecimento da sua biologia. Saber como distinguir o sexo das plantas que observam permitirá que cientistas ou meros curiosos possam fazer as suas identificações em campo ou no laboratório. A cooperação de todos os cidadãos será fundamental para conhecer a distribuiçãodas plantas femininas e das plantas hermafroditas ao longo do território. A erva-das-pampas foi inicialmente introduzida como planta ornamental, por ser bastante vistosa e resistente ao frio, à secura e aos solos pobres. Originalmente eram apenas comercializadas as plantas femininas, impedindo assim a sua reprodução por via seminal. A hipótese mais provável é que mais tarde tenha ocorrido a introdução de plantas hermafroditas, ou pela incapacidade de se distinguir os sexos nos viveiros quando elas são ainda plântulas, ou através da introdução acidental de plantas hermafroditas por outra via (e.g., sementes misturadas com alguma mercadoria). A partir do momento em que os dois tipos de plantas passaram a co-existir, a erva-das-pampas começoua reproduzir-se por semente, fugindo de cativeiro e aparecendo em sítios novos longe das plantas-mãe. Tornou-se uma espécie invasora altamente prejudicial para os ecossistemas e seres humanos, que tem vindo a aumentar substancialmente a sua área de distribuição nas últimas décadas.

Em linguagem botânica, diz-se que a erva-das-pampas é uma espécie ginodióica, isto é, possui plantas femininas e plantas hermafroditas(cada flor possui estruturas reprodutoras femininas e masculinas) (Figura 2). Contudo, funcionalmente é uma espécie dióica, o que quer dizer que precisa ter ambos os tipos de plantas relativamente próximas para se poder reproduzir de forma mais eficaz. As plantas hermafroditas são capazes de produzir sementes viáveis, mas numa quantidade muito baixa, pelo que a sua principal função consiste em doar pólen para a fecundação das plantas femininas. Na prática, o que se diferencia bem são as flores femininas na planta feminina dos componentes masculinos na planta hermafrodita. As flores hermafroditas têm a estrutura reprodutora masculina muito mais desenvolvida do que a estrutura reprodutora feminina, sendo que o que se vê são os estames, com pólen ou sem pólen, conforme o estado de desenvolvimento dos mesmos; na planta feminina o que se vê são as estruturas reprodutoras femininas, nomeadamente os estigmas e o ovário.

Em teoria, esta espécie floresce no final do verão (agosto e setembro), contudo há indivíduos que começam a florir mais cedo. Em Portugal no ano de 2019, observaram-se as primeiras inflorescências no mês de Maio.

As plumas, penachos ou inflorescências, são panículas constituídas por espigas que contêm entre 500 e 1000 espiguetas. Cada espigueta (ver na Figura 2) possui entre 3 a 8 flores de tamanho reduzido, sendo estas mais numerosas nas plantas femininas; cada flor origina um fruto que tem apenas uma semente. As flores femininas caracterizam-se à primeira vista por terem cílios compridos, vulgo pelos, enquanto nas flores hermafroditas os cílios são praticamente inexistentes ou de tamanho muito reduzido. A floração é geralmente mais tardia nas plantas femininas. Na Figura 2, as fotografias não representam uma espigueta completa; pretendem demonstrara diferença relativamente aos cílios nas diferentes flores, hermafroditas à esquerda e femininas à direita.

Espiguetas incompletas: a) espigueta de florhermafroditaonde é possível ver os estames amarelose a quase ausência de cílios; b) espigueta de flor femininaonde é possível observar a quantidade e o comprimento dos cílios; c) pormenor dos estamesda flor hermafrodita; pormenor dos estigmas da flor feminina.

Figura 2: Espiguetas incompletas: a) espigueta de florhermafroditaonde é possível ver os estames amarelose a quase ausência de cílios; b) espigueta de flor feminina onde é possível observar a quantidade e o comprimento dos cílios; c) pormenor dos estamesda flor hermafrodita; pormenor dos estigmas da flor feminina.

FLOR HERMAFRODITA

As imagens da Figura 3 que se segue, representam uma flor hermafrodita vista à lupa. Em a) pode-se ver uma flor em que foi retirado um estame – estrutura reprodutora masculina – foi puxado para baixo, para se visualizar a estrutura reprodutora feminina no meio, mais pequena, o ovário encimado pelosestigmas plumosos. Em b) e c) podemos ver cada uma das estruturas reprodutoras: b) parte masculina (estames, constituídos por grandes anteras amarelas e pequeninos filetes na base)e c) parte feminina (ovário quase transparente encimado por dois estigmas plumosos). Note-se que os estames são bem maiores do que os estigmas, como se pode ver em a), sendo que as duas últimas imagens não estão à mesma escala.

Figura 3.Flor hermafrodita vista à lupa: a) é possível ver ambas as estruturas reprodutoras, masculina e feminina; b) pormenor da estrutura reprodutora masculina; c) pormenor da estrutura reprodutora feminina

Figura 3.Flor hermafrodita vista à lupa: a) é possível ver ambas as estruturas reprodutoras, masculina e feminina; b) pormenor da estrutura reprodutora masculina; c) pormenor da estrutura reprodutora feminina

Recorde-se de que as flores hermafroditas funcionam como flores masculinas fornecedoras de pólen, daí a estrutura reprodutora feminina ser menos desenvolvida do que a masculina. Ainda assim, as flores hermafroditas podem originar sementes, contudo, em muito menos quantidade do que as flores femininas, e estas não estão cobertas por cílios compridos, dificultando a dispersão das sementes pelo vento.

FLOR FEMININA

As imagens que se seguem na Figura 4 representam diversas flores femininas, isoladas ou agrupadas em espiguetas. Em qualquer dos casos são bem visíveis os cílioscompridos, dando-lhes um aspeto “peludo e fofo”. Enquanto que nas flores hermafroditas são bem visíveis os estames, neste caso a ausência de estames é indicador de que estamos perante flores femininas. No seu lugar é possível visualizar os estigmas, sendo estes de tamanho consideravelmente inferior aos estames, tornando a sua visualização um pouco mais difícil a olho nu.

Figura 4.Flores femininas vistas à lupa. Note-se a quantidade e o comprimento dos cílios assim como a presença de estigmas plumosos, características que dão às flores das plantas femininas um aspecto mais “fofo”.

Figura 4.Flores femininas vistas à lupa. Note-se a quantidade e o comprimento dos cílios assim como a presença de estigmas plumosos, características que dão às flores das plantas femininas um aspecto mais “fofo”.

FLOR HERMAFRODITA Vs FLOR FEMININA

As estruturas reprodutoras femininas das plantas femininas são maiores do que as estruturas reprodutoras femininas das plantas hermafroditas. Na Figura 5, para facilitar a comparação, as duas flores encontram-se lado a lado: a flor hermafrodita encontra-se à esquerda e a flor feminina à direita.

Figura 5. Comparação à lupa de uma flor hermafrodita (à esquerda) com uma flor feminina (à direita). Em a) note-se a quantidade de cílios na flor feminina e a ausência dos mesmos na flor hermafrodita. Em b) é possível ver os estames da flor hermafrodita (entre os quais encontram-se o ovário e os estigmas, na ampliação) e os estigmas da flor feminina.

Figura 5. Comparação à lupa de uma flor hermafrodita (à esquerda) com uma flor feminina (à direita). Em a) note-se a quantidade de cílios na flor feminina e a ausência dos mesmos na flor hermafrodita. Em b) é possível ver os estames da flor hermafrodita (entre os quais encontram-se o ovário e os estigmas, na ampliação) e os estigmas da flor feminina.

Em suma, as flores femininas têm um aspeto mais “fofo e macio” devido aos inúmeros pelos compridos que possuem e aos estigmas “peludos” que ficam projetados para fora; já as flores hermafroditas têm menos pelos e os estames notam-se com bastante facilidade, o que lhes dá um ar mais “grosseiro e áspero”.

Figura 6. Comparação lado a lado entre plumas / espiguetas de plantas hermafroditas (à esquerda)e plantas femininas (à direita): a) observação de uma pluma feminina à lupa; b) pluma hermafrodita à esquerda, pluma feminina à direita; c) espigueta hermafrodita à esquerda, espigueta feminina à direita; d) e f) pormenor dos estames das flores hermafroditas; e) e g) pormenor dos estigmas das flores femininas; h) à esquerda pluma hermafrodita com estames soltos e à direita pluma feminina com estigmas salientes.

Figura 6. Comparação lado a lado entre plumas / espiguetas de plantas hermafroditas (à esquerda)e plantas femininas (à direita): a) observação de uma pluma feminina à lupa; b) pluma hermafrodita à esquerda, pluma feminina à direita; c) espigueta hermafrodita à esquerda, espigueta feminina à direita; d) e f) pormenor dos estames das flores hermafroditas; e) e g) pormenor dos estigmas das flores femininas; h) à esquerda pluma hermafrodita com estames soltos e à direita pluma feminina com estigmas salientes.

Cientificamente falando …

Cada uma das estruturas que formam a flor têm um nome científico próprio. Não pretendemos complicar, apenas levantar o véu para quem quiser saber um pouco mais.

A erva-das-pampas pertence à família das Poaceae (=Gramineae), a que pertence também o trigo, a cevada, o centeio e as canas. Sãoplantas polinizadas pelo vento (polinização anemófila) cujas flores não possuem nem pétalas nem sépalas. Geralmente conhecidas por gramíneas ou ervas(mas de “gramíneas” e “ervas” há milhares de espécies diferentes), possuem a “espigueta” como unidade básica da inflorescência, sendo esta muito importante na identificação das espécies. Glumas, lemas, páleas, aristas … são termos associados à floração das gramíneas e portanto também presentes na erva-das-pampas (Figura 7).

Figura 7. Na linha de cima, a), b) e c) dizem respeito a flores femininas, com os seus longos cílios bem visíveis. Na linha de baixo estão representadas flores hermafroditas, onde se nota a quase ausência de cílios e onde é possível observar os estames na figura d). Autoria das fotos: D.Walters e C. Southwick, USD em https://idtools.org/.

Figura 7. Na linha de cima, a), b) e c) dizem respeito a flores femininas, com os seus longos cílios bem visíveis. Na linha de baixo estão representadas flores hermafroditas, onde se nota a quase ausência de cílios e onde é possível observar os estames na figura d). Autoria das fotos: D.Walters e C. Southwick, USD em https://idtools.org/.

As lemas, páleas e glumas são brácteas, isto é, folhas modificadas, que protegem as flores e podem ajudar na dispersão das sementes. Quando as flores estão abertas, e dado que não existem pétalas, é possível observar os estames, protuberantes e pendentes que libertam enormes quantidades de pólen; por outro lado, também os estigmas, densamente plumosos, se podemver. Esta morfologia e comportamento dos órgãos reprodutores maximizam a dispersão pelo vento e captura do pólen.

Figura 8. A “figura 1” corresponde à legenda original de onde foi tirada a imagem: “El Carrizo de la Pampa (Cortaderia selloana) en Bizkaia. Guía práctica para su control”.

Figura 8. A “figura 1” corresponde à legenda original de onde foi tirada a imagem: “El Carrizo de la Pampa (Cortaderia selloana) en Bizkaia. Guía práctica para su control”.

Figura 8. A “figura 1” corresponde à legenda original de onde foi tirada a imagem: “El Carrizo de la Pampa (Cortaderia selloana) en Bizkaia. Guía práctica para su control”.

Apesar de difícil à primeira vista, o sexo das plantas acaba por se tornar fácil de identificar, mesmo para um olho destreinado. Uma lupa de bolso ou mesmo de laboratório ajuda a diferenciar os sistemas reprodutores. Com o tempo, ficará mais fácil distingui-las no campo.

 SEMENTES

Uma pequena observação sobre as sementes …

A erva-das-pampas possui uma semente por flor, de tamanho bastante diminuto(ca 1.5 – 3.5mm), facilmente dispersa pelo vento. Na verdade, cada “semente” trata-se de um fruto monospérmico cujas paredes não se conseguem separar da semente, denominado cariopse. As cariopses provenientes das flores femininas estão rodeadas por longos pelos que facilitam ainda mais a dispersão pelo vento ou água, permitindo-lhes também agarrarem-se a diversas superfícies rugosas. A erva-das-pampas é muito comum em zonas perturbadas, como é o caso das margens de autoestradas e ferrovias, sendo que a passagem dos veículos facilmente ajuda à sua dispersão. As cariopses provenientes das flores hermafroditas são produzidas em menor quantidade, com uma capacidade de germinação bastante inferior às provenientes de flores femininas. Ainda assim, podem produzir sementes férteis, apesar de estas não estarem cobertas por cílios compridos, resultando numa baixa capacidade de dispersão.

Figura 9. Fotografias tiradas à lupa das sementes,que na verdade são frutos, tecnicamente tecnicamente chamados de “cariopses”. A última foto pertence a D. Walters e C. Southwick, USD em https://idtools.org/.

Figura 9. Fotografias tiradas à lupa das sementes,que na verdade são frutos, tecnicamente tecnicamente chamados de “cariopses”. A última foto pertence a D. Walters e C. Southwick, USD em https://idtools.org/.

As sementes das plantas femininas podem “voar” até 30m em diversas direções devido à ação do vento, que, aliado à passagem de animais ou às atividades humanas (e.g. viaturas que se deslocam a elevada velocidade nas vias rápidas), podem originar distâncias de dispersão das sementes até 30 km de distância da planta-mãe!Uma planta feminina pode produzir um milhão de sementes e por cada semente que germinar e originar uma nova planta, também estas serão dispersas pelo vento, animais ou atividades humanas. “Grão a grão enche a galinha o papo” e assim a erva-das-pampas vai ganhando terreno às plantas nativas.

Não se sabe ao certo quanto tempo as sementes se mantêm viáveis no solo, mas comparando com uma outra espécie do mesmo género, Cortaderia jubata, pensa-se que não serão viáveis mais de 6 meses a 1 ano. Estudos com a C. jubata indicam que as suas sementes serão viáveis até um máximo de 4 a 6 meses. Apesar de serem necessários mais estudos, umprograma de controlo com a remoção das plantas antes da dispersão das sementes durante 2 anos seguidos, deverá resolver o problema da invasão, pois à partida, as sementes presentes no solo não deverão germinar para além desse período.

As sementes podem germinar em diferentes condições ecológicas, mas atingem um máximo de germinação em locais com alguma sombra, solos arenosos, com elevada disponibilidade de água e temperaturas que rondam os 20ºC a 25ºC. Apesar destas serem condições ótimas, a verdade é que há muitas sementes que germinam em diferentes tipos de solo, com diferente disponibilidade de água e mesmo debaixo de sol direto. Depois de estabelecida, a erva-das-pampas consegue suportar geadas pontuais, períodos de seca e solos pobres em nutrientes.A capacidade de adaptação da erva-das-pampas a diferentes habitats e condições climáticas, é o que a torna uma espécie invasora tão eficaz.

A erva-das-pampas reproduz-se essencialmente através de frutos (cariopses), mas pode também reproduzir-se vegetativamente, através de pequenos fragmentos desde queestes possuam raiz capaz de se agarrar ao solo. Também após intervenções quemantenham a raiz, como corte (Figura 10) ou a passagem de um fogo, a erva-das-pampas facilmente regenera, pelo que estes não são métodos de controlo eficazes.

Figura 10. Regeneração da erva-das-pampas cerca de 1 mês após corte.

Figura 10. Regeneração da erva-das-pampas cerca de 1 mês após corte.

Como nota final, é importante realçar que a erva-das-pampas pode causar alergias a pessoas mais sensíveis, devido às flores diminutas, à presença de “pelos” nas flores de plantas femininas e à presença de estames e pólen nas flores de plantas hermafroditas. Para além disto, as folhas são bastante cortantes e podem causar ferimentos profundos a quem manusear as suas folhas sem o devido cuidado: utilização de luvas, calças e mangas compridas.

By |2019-10-11T11:45:57+01:00octubre 9th, 2019|Noticas_p|Comentarios desactivados en O sexo das plantas de Cortaderia